Isso é férias - Filipinas - 2019

Quando se fala em férias, logo vem a imagem de praia, hotel, alegria, ócio, souvenir da região visitada e outros chavões da industria do Turismo. Férias virou um produto, com formato e preceitos.

Faz tempo que as minhas férias não seguem mais este padrão. Viajo com uma bicicleta e fico em lugares simples, buscando contato com as pessoas, relações de amizade e troca de experiências.

As minhas férias estão mais para uma Migração. As cegonhas abandonam seus ninhos, pois são incapazes de se adaptar as diferenças climáticas. Se preparam para a viagem, estocando mais gordura no corpo e deixam para trás toda a estrutura montada. Abandonam o hábito de nidificação e aproveitam as correntes de ar.

Comigo acontece algo parecido, tenho dificuldade de me manter apenas nas atividades laborais, supermercado e apartarentarismo. ( acredito que essa palavra não exista, mas quero diz, ter um local, ninho, para voltar).

Essa inabilidade me fez ter outras habilidades, a de viajar com pouco, muito pouco.

Viajo com uma bicicleta e dois alforges. Tudo isso não pesa mais que 25 kg. Tem que ter um poder de síntese bem grande para reduzir uma casa nessa estrutura, mas digo, não me falta nada.

Na bagagem tem o escritório, onde separo livros, caderneta de anotação, caneta, lápis, tickets de viagem, passaporte, entre outros pequenos objetos.
Na cozinha levo alguns alimentos (castanhas, banana desidratada, uva passa ) que trago do Brasil, pois sei que terei dificuldade de encontrar pela estrada. Na oficina vai as ferramentas da bicicleta e para resumir, se não fica muito detalhista, no quarto vão poucas roupas, barraca e alguns objetos de camping.

Tenho várias dificuldades pelo caminho, pois não sei onde irei dormir e comer e as vezes chego em povoados que não tem pousada ou hotel. Como estou de bicicleta, quando anoitece não tem muito para onde ir,  por isso, carrego uma pequena barraca,  pequena mesmo, só cabe uma pessoa, duas com muito amor.

Já dormi em posto de gasolina, escola, fundo de quintal, sofá da sala, capsule room e bem recentemente numa palafita.

Um dos últimos lugares que dormi, foi num centro de tratamento de água. Aqui na Filippinas tem problemas sério de água. Vários povoados não tem água encanada e o governo com a iniciativa privada desenvolveram um sistema de água filtrada para a população. São centros (lojas) que purificam a água.  Você recebe um  galão de 20 litros e pagando uma pequena quantia, leva água potável de qualidade para casa. Pois foi esse meu local de acampamento.
Converso com o vigilante, que meio assustado com a cena de um cicloturista, me permite colocar a barraca. Tomo um banho com água mineral e saio para procurar comida. Como o povoado não tem iluminação pública, coloco minha lanterna de cabeça e torço para não ter que procurar muito, pois um dia inteiro pedalando é divertido, mas cansativo. Não tem muito o que escolher, acho uma Tenta que mais parece um acampamento do MST e consigo pedir algo. Enquanto espero, fico imaginando como deve ser a cozinha e me vem a lembrança dos restaurantes que frequento no Brasil, que tem uma placa " Visite nossa cozinha". Não, nao obrigado, prefiro ficar vendo o céu daqui, está tão bonito!!! Janto e se em 30 minutos nada acontecer com o estômago, terei feito uma excelente escolha.

Retorno para o local que havia colocado a barraca e o vigilante chamou um amigo, talvez por causa da minha presença. Felizes por receber alguém naquele lugar, pedem a San Miguel light ( cerveja daqui) Pegam uma moto bike e compram na Tenta mais proxima. O clima de amizade cresce e eu vi essa motinha sair para comprar mais cerveja umas 4 vezes. Tento contribuir, mas é negado meu gesto com ênfase. Nessa conversa descontraída, descubro que terei que mudar completamente minha viagem, pois o novo amigo, que já está meio "borracho" me diz que não tem barco para onde quero ir, apenas lanchas ilegais que cruzam a fronteira para Malásia. Impressionante como uma simples conversa pode mudar tudo. Tive que voltar de avião, os 600km que havia feito de bicicleta, mas isso não invalida a viagem, pois "migrar"  é um eterno avançar e recuar.
Boas gargalhadas, hora de dormir.

Deito na minha barraca, que tem o nome de Micra, posto pelo fabricante, só para se ter noção da minha mansão. Maravilha, aqui pelo menos não sou atacado por formigas, mosquito ou sei lá mais o que. 

Poderia estar num hotel com ar condicionado e banheiro, mas não troco esses momentos inéditos.

 Claro que a minha viagem não é apenas de lugares simples. Na última cidade que estava hospedado, fiquei num quarto com ar condicionado, cama de casal e toalha branca. Nossa quanto luxo.

Estranho era que o ar condicionado não tinha botão de desliga. Ficou ligado 3 dias, mesmo eu avisando que iria passar o dia todo fora. Vai entender?

Vou passar o dia fora, pois irei fazer  mergulho de cilindro e iremos chegar aos 30 metros de profundidade. Coração bate mais forte. Faz 15 anos que não mergulho. Iremos visitar dois barcos afundados na segunda guerra mundial. Adentrar um barco naufragado será a minha primeira vez. Para entrar em lugares fechados, voce já tem que ter um conhecimento em mergulho, pois necessita técnica de flutuabilidade. Descemos orientados por uma corda e no sentindo contrário, vinha subindo um outro grupo e vejo um mergulhador de pele branca, mais muito branca, que mais parecia um cadáver. Será que eles tiveram problema? Afasto os pensamentos. No mergulho o efeito de narcose é real. Fácil viajar, entrar na letargia e achar que tudo está bem. Normal ouvir estórias de mergulhadores que queriam ficar no fundo, mesmo acabando o oxigênio.

Chegamos nos 30 metros e aparece um grande navio. Não me lembrei do Titanic, mas me senti pequeno perto do barco. Começamos a entrar nas galerias, meio escuro e pequenas passagens e em um determinado momento, não sei explicar porque, meu snooker se despreende do cilindro. Começo a puxar água. Água? Estou respirando água? Tempo passando. Fico assustado. Bolhas sobem na frente da máscara. Tempo passando. Penso em ir para superficie, sem chance, existe uma coluna de água de mais de 20 metros sob a minha cabeça. Estou perdendo tempo com ideias idiotas. Tenho que achar uma resolução rápida. Não vejo ninguém, ou melhor, não vejo nada. Os pensamentos correm numa velocidade maior do que posso acompanhar e não sei como tive a perspicácia para pegar o snooker reserva. Ele fica no lado direito do colete, não se esqueça disto, dizia o meu instrutor há 15 anos atrás. Tenho esquecido o que comi no almoço, mas tive essa lembrança. Se não tivesse tido essa idéia, não estaria escrevendo essa crônica. Respiro com força e aos pouco vou me acalmando. A minha companheira de mergulho chega, mas já havia resolvido. No filme Bacurau, dão um tiro na gringa e ela fica bem ruim e  perguntam: Você quer morrer ou viver? Passei por uma situação que não teve nem a pergunta e a resposta foi "Viver". Quem respondeu foi meu ser interno, que se manifesta apenas em situações extremas. Nessa hora o papagaio (mental) que passa o dia todo falando e desejando algo se cala e esse ser que vive em silêncio, se manifestou de forma enfática.

Sempre mergulhamos de dupla e a minha companheira me ajuda, mas já havia resolvido o problema. Ela mostra a corda e aponta para eu me segurar com firmeza. Os instrutores chegam e fazem sinais me perguntando como estou. Bem, bem não estou, mas estou muito bem por me sentir vivo. Sinalizam se quero subir ou continuar? Respondo com a mão que iremos descer.
Passo mais um dia "normal" na Filippinas.

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