SERRA DA MANTIQUEIRA

Toda vez que inicio uma nova cicloviagem, me vem aquela frase. Com o primeiro passo se dá a volta ao mundo.

Paramos de frente do Pão de Açúcar para tirar uma foto e logo aparece alguém perguntando da onde estamos vindo? Falei que de Copacabana. Fico imaginando o que ele deve estar pensando. Todo esse equipamento, para chegar apenas no Pão de Açúcar.  Neste momento somos apenas promessa de uma viagem de bicicleta, pois a ideia é viajar pela Serra da Mantiqueira durante 01 mês.

Pegamos um ônibus no Novo Rio para fugir do caos urbano e de riscos de trânsito desnecessários pela Av. Brasil.
Iniciamos em Resende/Penedo e a subida da serra para Visconde de Mauá nos espera com mais de 1.000 mts de ganho de elevação. Ascensão sem nenhum plator para descanso e no meio desta subida encontro um lindo grafite de uma coelha com saia rendada, segurando um buquê ou seria um "camarão" de maconha? O que leva uma pessoa a parar no meio desta subida para deixar esse trabalho artístico? Por perto não tem nenhuma residência.Penso que esses artistas deveriam ser remunerados pelo estado, pois deixam a viagem mais viajante ainda. Fazem isso pelo prazer de se  manifestar artisticamente. A arte se manifesta nos lugares mais remoto possível.
 
Encontro Norma sentada no asfalto. Está me esperando e parece confortável e feliz. Se alegra com o belo visual que vamos construindo na subida. Cruzamos com 5 "pontes" construídas na Serra para passagem dos animais em cima do asfalto. Forma criativa de evitar atropelamento dos pequenos animais da região.
 
Chegamos no Mirante do Sereno, título irônico para quem passou o dia pedalando morro a cima, com 10kg de bagagem.
Visconde de Mauá é o nosso primeiro oásis depois de 35km de ascensão. Conseguimos ficar na casa da Cris, que é uma senhora que tem uma casa toda decorada com bibelos chineses e se vc mudar algum de lugar, ela irá saber com facilidade, pois tudo é muito organizado. Me sentindo na casa da tia distante. Só tem 01 banheiro e o banho tem que ser de 10 minutos. Não abusa não, que ela te põe para correr. 

No outro dia decidimos seguir para Alagoa, que fica no Parque Estatual Bico do Papagaio.  Foi breve nossa estada pelo Parque da Pedra Selada. Mais serra pela frente. O bom é que estamos em estrada de barro e poucos carros cruzam por nós, se liga apenas no caminhão da Coca Cola, que esse chega em local que nem Correios chega. Aqui não teve jeito. O jeito é empurrar a bike. Subimos novamente mais de 1.000 mts e no final do dia descemos a serra com valas e pedras soltas. Numa desta, Norma cai e fica com a bicicleta em cima dela. Não consegui se desvencilar, pois o peso dos alforges, cansaço e susto começam a tirar a paz de espírito. Ainda temos 20 km para chegar em Alagoa e por sorte ela não se machucou.

Chegamos em Alagoa a noite. Terra do queijo. As bicicletas ficaram guardadas numa sala com grandes rodelas de queijo e o cheiro ainda dá para sentir nos alforges. A dona da pousada sugeriu que ficássemos no sub solo, pois os quartos superiores teriam o som da balada de sábado. Achei que daria conta e me arrependi. Acordei a 1 da matina e só fui dormir quando acabou o som e quando pego o celular para me distrair, recebo não sei de onde uma frase do filósofo 
Friedrich Nietzsche que diz. "Quando estiver em um local desconhecido, aceite as sugestões das pessoas que moram neste local".
Chapéu de burro é marreta. Vê se aprende.

De Alagoa até Aiuroca são apenas 20km, mas com o volume de atividade física dos dias anteriores e peso da bagagem, as distâncias que estamos acostumados tomam outra dimensão, mas isso não é problema, pois a ideia não é chegar em algum lugar e sim viver os lugares que estamos passando. Temos uma pequena barraca, que nos traz a garantia que não iremos dormir ao relento. Temos pouca comida que seria suficiente para 01 noite. A preocupação é com a água. Não podemos nos desidratar,  pois não teríamos energia para seguir.

Chegando em Aiuroca estou com diarreia e tivemos que passar duas noites numa pousada que não deixou boas lembranças. Curado da diarreia, decidimos voltar alguns kms, para entramos no Vale do Matutu. Dois dias atrás haviamos passado da entrada do vale, mas como não tínhamos comida, pousamos em Aiuroca, o que foi acertado.

No meio do caminho para Matutu, decido deixar um alforje num camping. Como teremos que voltar pelo mesmo caminho, não havia necessidade de levar toda a bagagem. Levo apenas a barraca e a roupa do corpo. Sempre dá para reduzir mais alguma coisa.
Acampamos no quintal do Cassimiro, que estava tão serelepe que era difícil entender o que ele falava. Misturava algumas palavras em italiano, espanhol e português. Tudo solto, mas uma amorosidade e acolhimento que não recebemos nos hotéis com estrela. Chorou em saber que era aniversário da minha filha. Recitou um lindo poema para ela por telefone. O telefone funciona por wi fi, pois a rede das operadoras não funciona. Estão vendendo rede de wi fi rural em todos os locais que passamos. 

Já havia ouvido falar do vale do Matutu quando tinha 25 anos. O grupo Udianabhanda de Pirenopolis/GO gravou um disco na década de 80 por lá. Tinha esse LP e conversei com o diretor da escola de Matutu, me relatando que fez parte do coral infantil do disco. Hoje ele cuida das crianças da mesma escola que estudou. A escola é mantida pelos pais da região. Não tem escola municipal.
As Cachoeiras são incríveis e o morro do Papagaio vai ficar para a próxima. A ideia é fazer a comemoração do aniversário da filha no topo do morro e passar a noite por lá. A viagem só abre novas possibilidades.

Não temos um rota rígida, apenas vontade e animo para conhecer novos lugares, assim não fazemos grandes expectativas e vivemos cada dia com o que se apresenta. Nessa falta de planejamento, conversamos que seria interessante conhecer São Tomes das Letras. Essa cidade virou um norte na viagem, mas não um trilho de trem. O caminho se faz caminhando, no nosso caso pedalando.

De Aiuroca seguimos para Cruzilha. Já faz alguns dias que andamos apenas em estrada de barro e não chegamos nem perto de uma BR, mas hoje tivemos que cruzar a BR 267. Vendo os carros passando em alta velocidade e caminhões grande de carga, me traz de volta do idílio da cidade pequena e pacata. Do ritmo da natureza, do canto dos pássaros e magia das noites estreladas. Tiramos foto de uma parada de onibus que tinha um grafite escrito ACREDITAR. Novamente a arte nos alimentando e viajando de bicicleta, pode ter certeza que você estará muito mais sensível a receber essas mensagens.

Optamos por continuar nas estradas de barro, pois poderiamos seguir pela BR que chegariamos bem mais rápido e com menos esforço. Pela estrada de barro, passamos por fazendas  


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