Cicloviagem para Aparecida do Norte - 05/2019
Gilmar é um ciclista rápido e forte. Não se cansa fácil, se é que chegou a conhecer a dimensão semântica da palavra cansar. Da sua infância, me trouxe uma história, a qual estou refletindo até agora. Disse-me que trabalhava com o pai na capina, sob a vigilância de um austero capataz armado. Seguiam capinando até o capataz atirar no chão, avisando que era para retornar. Esse episódio me lembra as perdas trabalhistas que os brasileiros vêm sofrendo atualmente, mas não é sobre isso que me propus a escrever neste texto. Esse relato, de modo breve e pontual, é no sentido de mostrar que Gilmar está mais do que acostumado às durezas da vida, e andar de bicicleta lhe é algo sempre prazeroso. Mesmo que os demais pares considerem exaustivo e cansativo, manteve-se surpreendente e admiravelmente impávido após 300 km de pedalada. Isso mesmo: 300 km. Eu, com tantos anos de estrada, senti-me um frango de granja, daqueles que nunca pisaram na terra e sempre se alimentaram de ração balanceada, bem diferente de um frango caipira. Pois, então: 300 km foi o que rodamos até a emblemática Aparecida Norte, cidade que integra o imaginário católico brasileiro. Imaginem vocês fazer um cicloturismo com uma pessoa que anda bem mais rápido que você. Foi exatamente este o meu desafio durante dois dias. Dalvio foi outro companheiro de pedal que nos acompanhou nessa aventura. Ciclista com experiência em MTB, gosta de ir ouvindo música enquanto pedala, mas que nunca tinha enfrentado estrada e distâncias longas. Da minha parte, disponho de inúmeras e diversas experiências de cicloviagem, inclusive de longas distâncias, mas conduzidas com batimento cardíaco baixo. Minhas viagens estão mais para uma música do Pink Floyd com brisa no ar, nas quais prevalece a endorfina e não a estamina adquirida de uma vida de batalha. Tentei trazer temperança para o grupo, para que não nos sentíssemos em um show do hj Motorhead, que canta "God was never on your side" ou "Ride with the devil", do Motley Crue.
Pois bem: estávamos indo para Aparecida do Norte e, quem sabe com reza forte, deus fica do nosso lado. Acho que as orações foram atendidas, pois logo na Avenida Brasil, Dalvio quase perde a vida. No instante em que Gilmar e eu passamos por um cruzamento só deu para ouvir uma forte freada seguida de cheiro de borracha queimada e, poucos segundos depois, escutar os gritos indignados de Dalvio com o motorista. ‘Que bom que está gritando, sinal de que está vivo e bem!’. Na verdade, a Avenida Brasil não foi nada diferente do que imaginávamos. Asfalto irregular, buracos, grandes buracos, trânsito desordenado, lixo queimando na beira da estrada, moradias horrendas, galpões abandonados. Uma realidade distópica, que nada deixava a desejar a filmes de ficção. Como estava nublado, não enxergávamos o sol e sequer sabíamos se estávamos indo para o norte ou para o sul e aquele cenário deplorável somente confirmava o sentimento de uma terra apocalíptica. Felizmente essa sensação rapidamente se dissipa, pois começamos a subir a Serra das Araras. Fácil voltar para a realidade terráquea.
Bom, daí para frente tentávamos controlar o Gilmar, dispondo-o na frente do pelotão, no qual eu ia em segundo, avisando para que o nosso ciclista intrépido e veloz não passasse de 35 km nas retas, buscando ainda dar uma chance ao Dálvio para que ficasse no ‘vácuo’ na parte de trás. Percebo, porém, que ele não estava conseguindo seguir com a gente, seguindo um pouco atrás, visivelmente fazendo força sem se aproveitar do vácuo.
Encontramos um grupo de três ciclistas que seguiam igualmente para Aparecida. Todos estavam de MTB em um ritmo bem mais lento do que o nosso. Nosso ritmo era constante e só parávamos para comer e encher as garrafinhas. Em uma dessas paradas, tenho a ‘brilhante’ ideia de colocar a garrafa de água na geladeira de refrigerante/cerveja do restaurante. Saímos, pegamos uma descida monumental e, ao sentir sede, cadê a garrafinha? Volto ou não volto para pegar a garrinha? Tomo coragem e volto na contramão e acabo encontrando o outro grupo que seguia para Aparecida. Eles não devem ter entendido nada: por que esse cara segue na contramão e na direção errada? Não era possível ir para o outro lado da rua, pois havia uma mureta de concreto nessa parte toda, mas a minha arriscada decisão não deixou de ser acertada, pois me fartava de água com facilidade e, se tivesse com apenas com uma, teria me desidratado.
O nosso grupo se nutria de um astral bom e amigável. Algumas adversidades corriqueiras: um raio quebrado da minha roda e dois pneus furados do Dalvio. Ninguém conseguia tirar o espinho do seu pneu, mas o Gilmar, sempre muito determinado, em um gesto certeiro, quase heroico, tira o espinho com a boca. ‘Eita: mordeu e ainda cuspiu longe o pedacinho do espinho!’ Novidade absoluta para mim.
A noite chegou e tivemos ainda de pedalar durante uma hora no escuro - nada muito recomendável, naturalmente. Apenas o Dalvio havia trazido iluminação, mas nada que fosse suficiente para o nosso pelotão. Nada fácil pedalar nessas condições, sem contar o perigo de buracos e valas no meio do caminho. Isso, sem dúvida, trazia mais cansaço, não apenas físico, mas mental também, dado o esforço conferido em uma atenção redobrada. Por ironia do destino, paramos em uma pequena cidade chamada Queluz, e era justamente o que mais precisávamos: nada menos do que um pouco de luz depois de enfrentar tantas dificuldades – afinal, havíamos percorrido 220 km e o cansaço, somado com uma fome incisiva e a vontade imperativa de dormir, nos assolava. Notamos que o nosso companheiro Dalvio entrou em um estado catatônico, pois não conseguia pronunciar uma palavra sequer. Fui eu que negociei com a dona da pousada se ficaríamos em um quarto de três camas ou em dois dormitórios, enquanto o Gilmar me rondava lembrando que tínhamos de sair às cinco da manhã. Acabo sendo firme, falando alto e com firmeza com ele, afirmando que precisávamos antes tomar banho e providenciar uma janta. Estávamos visivelmente alterados naquela hora. Depois do banho, o grupo acalmou e foi engraçado encontrar os dois amigos descalços na recepção da pousada, já que não levaram sandália para não carregar peso. Minha simples sandália havaiana parecia um sapato scarpin. Jantamos quentinhas, das quais não restou nem a embalagem de alumínio para contar a estória.
Pensei que o outro dia fosse ser mais tranquilo, pois seriam apenas 80 km. Vã ingenuidade! Saímos sem café da manhã e enfrentamos uma serra alterosa. O ritmo só aumentava, e não estou acostumando a pedalar ou fazer qualquer tipo de atividade física em jejum. Será que isso vai dá certo? Para a minha surpresa depois de 15 km, avistamos um posto de gasolina no qual tomamos um café bem reforçado. Por tradição, Gilmar não tira o capacete para comer, pois o seu pai não tirava o chapéu nunca trabalhando, e, quando parava, já estava pronto para continuar devidamente paramentado como lavrador.
Chegamos em Aparecida às 11h da manhã de um ensolarado domingo. Ali soubemos que o grupo que vinha atrás de nós não dormiu e lá aportou às 2h da manhã. Viajaram de noite e isso me fez lembrar La Fontaine e uma das fábulas de Esopo: A lebre e a tartaruga. Quem corre cansa, mas devagar se vai longe. Não que estivéssemos em uma competição, até porque foi providencial termos dormido em Queluz.
Visitamos Cachoeira Paulista e a Basílica de Aparecida, uma tentativa singela de reprodução da praça de São Pedro no Vaticano, mantidas as devidas proporções, claro. A forma elíptica rodeada por colunas se abrem como em um grande abraço maternal, buscando simbolizar, assim, a Igreja mãe.
Realizados com o passeio até Aparecida, voltamos de ônibus, pois não havia tempo suficiente para voltarmos pedalando. Quem sabe na próxima?
Diuk Mourão - 05/2019
Pois bem: estávamos indo para Aparecida do Norte e, quem sabe com reza forte, deus fica do nosso lado. Acho que as orações foram atendidas, pois logo na Avenida Brasil, Dalvio quase perde a vida. No instante em que Gilmar e eu passamos por um cruzamento só deu para ouvir uma forte freada seguida de cheiro de borracha queimada e, poucos segundos depois, escutar os gritos indignados de Dalvio com o motorista. ‘Que bom que está gritando, sinal de que está vivo e bem!’. Na verdade, a Avenida Brasil não foi nada diferente do que imaginávamos. Asfalto irregular, buracos, grandes buracos, trânsito desordenado, lixo queimando na beira da estrada, moradias horrendas, galpões abandonados. Uma realidade distópica, que nada deixava a desejar a filmes de ficção. Como estava nublado, não enxergávamos o sol e sequer sabíamos se estávamos indo para o norte ou para o sul e aquele cenário deplorável somente confirmava o sentimento de uma terra apocalíptica. Felizmente essa sensação rapidamente se dissipa, pois começamos a subir a Serra das Araras. Fácil voltar para a realidade terráquea.
Bom, daí para frente tentávamos controlar o Gilmar, dispondo-o na frente do pelotão, no qual eu ia em segundo, avisando para que o nosso ciclista intrépido e veloz não passasse de 35 km nas retas, buscando ainda dar uma chance ao Dálvio para que ficasse no ‘vácuo’ na parte de trás. Percebo, porém, que ele não estava conseguindo seguir com a gente, seguindo um pouco atrás, visivelmente fazendo força sem se aproveitar do vácuo.
Encontramos um grupo de três ciclistas que seguiam igualmente para Aparecida. Todos estavam de MTB em um ritmo bem mais lento do que o nosso. Nosso ritmo era constante e só parávamos para comer e encher as garrafinhas. Em uma dessas paradas, tenho a ‘brilhante’ ideia de colocar a garrafa de água na geladeira de refrigerante/cerveja do restaurante. Saímos, pegamos uma descida monumental e, ao sentir sede, cadê a garrafinha? Volto ou não volto para pegar a garrinha? Tomo coragem e volto na contramão e acabo encontrando o outro grupo que seguia para Aparecida. Eles não devem ter entendido nada: por que esse cara segue na contramão e na direção errada? Não era possível ir para o outro lado da rua, pois havia uma mureta de concreto nessa parte toda, mas a minha arriscada decisão não deixou de ser acertada, pois me fartava de água com facilidade e, se tivesse com apenas com uma, teria me desidratado.
O nosso grupo se nutria de um astral bom e amigável. Algumas adversidades corriqueiras: um raio quebrado da minha roda e dois pneus furados do Dalvio. Ninguém conseguia tirar o espinho do seu pneu, mas o Gilmar, sempre muito determinado, em um gesto certeiro, quase heroico, tira o espinho com a boca. ‘Eita: mordeu e ainda cuspiu longe o pedacinho do espinho!’ Novidade absoluta para mim.
A noite chegou e tivemos ainda de pedalar durante uma hora no escuro - nada muito recomendável, naturalmente. Apenas o Dalvio havia trazido iluminação, mas nada que fosse suficiente para o nosso pelotão. Nada fácil pedalar nessas condições, sem contar o perigo de buracos e valas no meio do caminho. Isso, sem dúvida, trazia mais cansaço, não apenas físico, mas mental também, dado o esforço conferido em uma atenção redobrada. Por ironia do destino, paramos em uma pequena cidade chamada Queluz, e era justamente o que mais precisávamos: nada menos do que um pouco de luz depois de enfrentar tantas dificuldades – afinal, havíamos percorrido 220 km e o cansaço, somado com uma fome incisiva e a vontade imperativa de dormir, nos assolava. Notamos que o nosso companheiro Dalvio entrou em um estado catatônico, pois não conseguia pronunciar uma palavra sequer. Fui eu que negociei com a dona da pousada se ficaríamos em um quarto de três camas ou em dois dormitórios, enquanto o Gilmar me rondava lembrando que tínhamos de sair às cinco da manhã. Acabo sendo firme, falando alto e com firmeza com ele, afirmando que precisávamos antes tomar banho e providenciar uma janta. Estávamos visivelmente alterados naquela hora. Depois do banho, o grupo acalmou e foi engraçado encontrar os dois amigos descalços na recepção da pousada, já que não levaram sandália para não carregar peso. Minha simples sandália havaiana parecia um sapato scarpin. Jantamos quentinhas, das quais não restou nem a embalagem de alumínio para contar a estória.
Pensei que o outro dia fosse ser mais tranquilo, pois seriam apenas 80 km. Vã ingenuidade! Saímos sem café da manhã e enfrentamos uma serra alterosa. O ritmo só aumentava, e não estou acostumando a pedalar ou fazer qualquer tipo de atividade física em jejum. Será que isso vai dá certo? Para a minha surpresa depois de 15 km, avistamos um posto de gasolina no qual tomamos um café bem reforçado. Por tradição, Gilmar não tira o capacete para comer, pois o seu pai não tirava o chapéu nunca trabalhando, e, quando parava, já estava pronto para continuar devidamente paramentado como lavrador.
Chegamos em Aparecida às 11h da manhã de um ensolarado domingo. Ali soubemos que o grupo que vinha atrás de nós não dormiu e lá aportou às 2h da manhã. Viajaram de noite e isso me fez lembrar La Fontaine e uma das fábulas de Esopo: A lebre e a tartaruga. Quem corre cansa, mas devagar se vai longe. Não que estivéssemos em uma competição, até porque foi providencial termos dormido em Queluz.
Visitamos Cachoeira Paulista e a Basílica de Aparecida, uma tentativa singela de reprodução da praça de São Pedro no Vaticano, mantidas as devidas proporções, claro. A forma elíptica rodeada por colunas se abrem como em um grande abraço maternal, buscando simbolizar, assim, a Igreja mãe.
Realizados com o passeio até Aparecida, voltamos de ônibus, pois não havia tempo suficiente para voltarmos pedalando. Quem sabe na próxima?
Diuk Mourão - 05/2019
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